domingo, 1 de março de 2009

Capítulo 5 de "Passagem para Ravena".


"As coisas que estão no alto, essas coisas não morrem. Quantos navegantes já guiaram suas embarcações seguindo a Estrela do Norte? Ela está lá, trazendo pra casa o pescador solitário, da mesma forma que trouxe de volta o barco avariado de um guerreiro viking.
Quando o guerreiro morreu, recebeu as honras de um lindo funeral. Foi colocado em seu barco, que ardeu em chamas em auto-mar. Os heróis vikings gostavam de pensar que suas cinzas se espalhariam ao sabor das correntes por todos os mares da Terra. É possível que, ao recolher uma bola perto da espuma da praia, uma criança, pise sem saber numa partícula mínima da ciznza do guerreiro. Ou de seu barco, pois agora são um só, feitas da mesma matéria de que é feita a Estrela do Norte: eternidade. Assim o guerreiro vive, embora até mesmo seu povo já tenha desaparecido.
As coisas que estão no alto não morrem. E o que dizer de um amor que se coloca acima de todas as coisas? Existiria um amor assim, tão poderoso e rebelde, que se recussaria a morrer, ignorando o vento gelado da velhice?
Talvez seja possível imaginar um sentimento que seja mais forte que as marcas do tempo. Algo que faria com que um homem velho fitasse o rosto de sua companheira e visse, no fundo de seus olhos a mesnma menina dos primeiros anos. E que, ao final de tudo, já sem filhos ou amigos, quase que sem memórias, ambos se sntassem para comtemplar as estrelas e descobrissem (sem que fosse preciso falar) que estavam cada vez mais longe do mundo dos homens e mais próximos da estrela Aldebarã.
Mais louco ainda seria um amor não terminado, não completamente vivido. Um amor ao qual é roubado o direito de conhecer todas as delícias e dores de envelhecer a dois. E que, por lhe roubarem a chance de cumprir todo o seu ciclo, se um dia pudesse ressuscitar, permaneceria forte, subversivo com toda a paixão dos primeiros dias. Um amor que se reacenderia quantas vezes forem necessárias - quantas vezes fosse chamado - , com a raiva e revolta de uma separação tão prematura, de vidas que mal começaram.
Se preciso, para permanecer vivo, talvez esse amor fosse mais forte que o ódio. Ou feito da mesma matéria".

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"Há dias em que é preciso sair de si mesma. Virar-se do avesso, cometer uma pequena loucura. Mesmo sabendo que é besteira, que se vai sofrer depois. Mas é preciso agir assim, pois não há outra maneira de aguentar até o dia seguinte".

Trecho do livro "Passagem Para Ravena".

Muito bom livro.
Aliás, o melhor livro que eu já li.
Essa frase resume exatamente aquilo que eu sempre senti, mas que nunca parei pra pensar.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Tarde Nostálgica.


Um dia desses, no meio do caminho pro trabalho, andei pensando naquilo tudo que eu já vivi.
Aquela sensação de um passado tão distante chegou a incomodar, a me chamar, no meu mais profundo.
Uma saudade das tardes quentes de verão, em que eu deitava na cama e olhava pra fora da janela, só pra poder observar o trajeto dos pássaros, que pareciam pontinhos negros no céu e as nuvens, que formavam tantos desenhos quanto minha imaginação desejasse.
Uma saudade tão grande que quase sufocava.
Lembrei-me também das pessoas que passaram por mim. Tantas vozes, rostos diferentes... Marcas eternas na alma. Coisas que jamais serão apagadas. Talvez esquecidas no superficial do dia-a-dia , mas no íntimo, sempre estarão presentes. Aquilo que uma vez me foi apresentado, não posso me desfazer.
Às vezes o destino é traiçoeiro e nos tira aqueles que achamos que jamais morreria, que jamais desapareceria de nossas vidas. Tudo tão repentino e misterioso. Mas não coloco em discussão. O destino tem os caminhos mais incertos e inatingíveis pelo nosso entendimento.
E me veio à mente as tantas vezes em que eu apanhei e tropecei no meio do caminho da amizade. Precisei de uma dose de anti-orgulho muito grande. E percebi que só agora encontrei quem sempre me fazia falta. (São vocês que eu quero do meu lado até pra terminar a vida! Quero que vejam minha vida de perto, como sempre fazem).
A saudade me fez tão bem naquele dia!
Aquela tarde nostálgica me fez ver as coisas mais simples e bonitas da vida, da minha vida.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Aqueeele clichê básico, mas faz pensar.

Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez, é a desilusão de um "quase". É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudoque poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou, não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo,o mar não teria ondas,os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; prosamores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando,fazendo que planejando,vivendo que esperando, porque, embora quem quase morre esteja vivo,quem quase vive já morreu!

Luís Fernando Veríssimo.